Valores de ferritina sérica em beta talassemia heterozigota
Sr. Editor
Estima-se que 1,5% a 3% da população mundial sejam portadores do traço talassêmico.1 No Brasil, a incidência depende da região avaliada. No estado de São Paulo acredita-se que 2% dos indivíduos sejam portadores dessa alteração de hemoglobinas.2
Os heterozigotos geralmente são assintomáticos e o quadro hematológico se caracteriza por diminuição dos níveis de hemoglobina (Hb), redução do volume corpuscular médio (VCM), sendo frequentemente confundida com anemia ferropriva. O diagnóstico diferencial é realizado pela avaliação dos índices hematológicos, análise morfológica do sangue periférico e quantificação das Hb A2 e Hb Fetal.3 A avaliação da ferritina sérica é fundamental para a discriminação diagnóstica.
Os níveis de ferro podem ser influenciados pelo aumento na absorção, pela baixa excreção e por mecanismos que regulem esse processo.4,5,6 A deficiência está relacionada a estados mórbidos, como alterações neurológicas, complicações obstétricas e do recém-nascido, incapacidade para o trabalho e imunodeficiência.5,6,7 Os grupos mais suscetíveis são as crianças entre 1 e 3 anos de idade, adolescentes, mulheres em idade fértil e idosos.8,9
Com o objetivo de comparar os níveis de ferritina sérica entre mulheres portadoras e não portadoras de beta talassemia heterozigota, avaliamos 137 mulheres no período de um ano, 63 com diagnóstico de betatalassemia heterozigota e 74 com hemoglobinas normais (Hb AA). Esse foi um estudo retrospectivo, fundamentado em observação clínica de que portadoras de beta talassemia heterozigota apresentavam valores de ferritina aumentados. A seleção das mulheres foi aleatória e segundo a sua busca por consulta médica. Nesse momento foram orientadas sobre a pesquisa e, após o consentimento, incluídas no estudo. Os critérios de inclusão no grupo das não portadoras foram o nível de Hb igual ou superior a 12g/dL e o VCM entre 80 e 100 pg, e os de exclusão, para ambos os grupos, o uso de medicamentos à base de ferro há pelo menos um mês e a presença de doenças inflamatórias e/ou neoplásicas. As idades encontravam-se entre 10 e 49 anos.
O diagnóstico de beta talassemia foi baseado em hemograma (Pentras 120 Retic-Horiba ABX), na quantificação das Hb A2 e Hb Fetal por HPLC (Bio-Rad) e na análise morfológica de sangue periférico. A dosagem de ferritina sérica foi realizada por quimioluminescência e esses resultados analisados estatisticamente pelo teste de Mann Whitney.
No grupo de mulheres não portadoras de talassemia beta
minor, a idade variou de 10 a 48 anos, com média de 31,5 anos, e entre as portadoras de talassemia, de 12 a 49 anos, com média de 28, 48 anos. Os valores de Hb e VCM, utilizados para a separação dos grupos, estão descritos na Tabela 1 e evidenciam as diferenças inerentes à beta talassemia heterozigota.
O valor de ferritina sérica variou de 5,00 a 489,49 ng/ml com mediana de 51,90 nas portadoras de beta talassemia e de 7,09 a 170,00 ng/mL com mediana de 31,60 nas não portadoras. Valores acima de 150 ng/mL foram observados em sete (11%) mulheres com talassemia e, em apenas duas (3%) do grupo com Hb AA, encaminhadas para avaliação de hemocromatose. Em 10 (16%) talassêmicas e em 20 (27%) não talassêmicas foram encontrados valores abaixo de 20 ng/ml indicando deficiência de ferro, posteriormente investigada. A avaliação estatística dos níveis globais de ferritina sérica mostrou diferença significante entre os dois grupos (p = 0,0052) conforme ilustra a Figura 1.
Na beta talassemia heterozigota, geralmente a eritrocinética é normal, podendo ocorrer discreta diminuição da sobrevida dos eritrócitos e leve eritropoese ineficaz. Todavia, alguns estudos têm demonstrado a presença de sobrecarga de ferro nesses pacientes.10,11,12 A fisiopatologia dessa associação não está esclarecida e sugere-se um sinergismo entre as mutações nos genes que codificam proteínas relacionadas à absorção de ferro e a beta talassemia.11,12 A diferença de ferritina entre os dois grupos estudados sugere maior poder de absorção do ferro intestinal em portadoras de beta talassemia heterozigota. Em algumas situações, como em gestantes, crianças, adolescentes e mulheres que menstruam, podem acarretar uma vantagem seletiva.12 Por outro lado, quando não existe aumento das necessidades de absorção, há o risco do desenvolvimento de sobrecarga e, eventualmente, dano orgânico.
A heterogeneidade dos valores encontrados e a não correlação com os níveis de hemoglobina sugerem que esse aumento da absorção possa ser não só pela hemólise e eritropoese ineficaz desencadeada pela talassemia. Portanto, há necessidade de investigação de possíveis fatores genéticos e/ou ambientais que possam influenciar o mecanismo de absorção em talassêmicos do tipo beta heterozigotos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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12. Martins R, Picanço I, Fonseca A, Ferreira L, Rodrigues O, Coelho M, et al. The role of HFE mutations on iron metabolism in beta-thalassemia carriers. J Hum Genet. 2004;49(12):651-5.
1. Médica hematologista. Preceptora de Clínica médica da UFSCar
2. Biomédica do Laboratório Unilab, São Carlos-SP
3. Professor. Departamento de Ciências da Computação e Estatística - Unesp, Campus de São José do Rio Preto-SP
4. Bióloga. Professora do Depto. de Biologia, Unesp, São José do Rio Preto-SP
Unesp - Campus de São José do Rio Preto. Departamento de Biologia, Laboratório de Hemoglobinas e Genética das Doenças Hematológicas
Correspondência:
Isabeth da Fonseca Estevão
Laboratório de Hemoglobinas e Genética das Doenças Hematológicas, Departamento de Biologia
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Avaliação: Editor e dois revisores externos
Conflito de interesse: sem conflito de interesse
Recebido: 26/10/2009
Aceito após modificações: 01/02/2010